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quinta-feira, 1 de agosto de 2019

No Japão, procurar emprego aos 75 anos é o 'novo normal'

No Japão, procurar emprego aos 75 anos é o 'novo normal'

Governo incentiva pessoas com mais de 70 anos a trabalharem por mais tempo para aliviar carga de gastos do país
Bloomberg News
20/05/2019 - 14:25 / Atualizado em 10/07/2019 - 10:33

Aos 75 anos, Mikiko Kuzuno se viu forçada a se candidatar a um emprego em uma fábrica de toalhas em Tóquio Foto: Bloomberg

TÓQUIO - Após ser demitida aos 75 anos, Mikiko Kuzuno foi se candidatar a uma vaga numa fábrica de toalhas nos arredores de Tóquio. Ela fez questão de se apresentar pessoalmente.
— Pedi que dessem uma boa olhada em mim — disse ela. — Queria mostrar o quanto sou saudável.
Agora com 78 anos, Kuzuno está há três anos trabalhando na pequena fábrica em Warabi, onde ajuda a lavar e empacotar toalhas de mão fornecidas a clientes em restaurantes. É uma tarefa árdua, que exige ficar em pé durante três horas seguidas, mas ela não pensa em se aposentar — em parte por razões financeiras e, por outro lado, porque detesta ficar sem fazer nada em casa.

Este perfil deve ser tornar o "novo normal", com mais septuagenários trabalhando no Japão e reforçando sua imagem de país dos workaholics . Com a população local envelhecendo no ritmo mais acelerado do planeta, o primeiro-ministro Shinzo Abe quer ver os idosos a trabalhando por mais tempo.

População deve cair 30% até 2060

O envelhecimento da população do Japão elevou os gastos com aposentadorias, que responderam por cerca de 30% das despesas do governo no último ano fiscal.
Abe quer mudar a legislação, para incentivar as empresas a abolirem a idade compulsória para a aposentadoria e adotarem outras medidas para manter seus funcionários trabalhando após os 70 anos. O governo também estuda um modelo para criar incentivos aos trabalhadores que, assim, teriam um retorno maior se adiassem a aposentadoria para os 75 anos.
O Japão é o país com a maior proporção da população acima de 65 anos. A expectativa de vida, de 84 anos, empata com a da Suíça como a maior do mundo, segundo dados do Banco Mundial.

Takayoshi Kimura, de 73 anos, fechou seu próprio negócio na zona rural e foi procurar emprego na capital Foto: Bloomberg

Com uma taxa de natalidade em declínio, a população do Japão deverá cair quase 30% até 2060, período em que cerca de 40% dos cidadãos terão 65 anos ou mais, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa sobre População e Previdência Social.
— Precisamos adequar a estrutura da nossa economia e da nossa sociedade para nos adequarmos à realidade de uma vida de 100 anos ou mais  —, disse Shinjiro Koizumi, de 38 anos, parlamentar que lidera um comitê sobre envelhecimento do Partido Liberal Democrata.

Incentivo para aposentadoria tardia

Convencer as pessoas a trabalharem alguns anos a mais pode ser difícil. Uma pesquisa publicada pelo gabinete do governo em janeiro mostrou que cerca de 38% dos japoneses querem trabalhar além dos 65 anos, enquanto mais de 50% preferem se aposentar antes dessa idade.
Os empregos que o Japão precisa mais preencher estão em atividades de trabalho intensivo, como construção, cuidados de enfermagem e serviços de entrega. Ou seja, não são os empregos tipicamente associados aos trabalhadores mais velhos. As áreas rurais com o maior percentual de residentes com 65 anos ou mais também têm poucos empregos adequados à força de trabalho que envelhece.
Aos 72 anos, Atsushi Morishita, fundador e presidente da Tempos Holdings, que administra uma rede de 58 lojas de equipamentos de cozinha comercial, vem abrindo as portas para os trabalhadores mais velhos. Ele conta ter se inspirado no seu pai, que trabalhou em uma fazenda até depois de 90 anos.
— Em Tóquio, assim que as pessoas completam 65 anos, perdem tempo jogando críquete ou algo assim. Então eu pensei em oferecer um lugar para elas trabalharem — disse Morishita.
Cerca de um quarto de sua força de trabalho tem 60 anos ou mais. O empresário afirma que é preciso entender que os trabalhadores mais velhos normalmente têm menor produtividade, de modo que os salários precisam ser administrados de acordo com a produção, diz o empresário:
— Em lugares como a Toyota, exige-se uma alta produtividade. Então, eu não acho que eles poderiam fazer isso. Mas em uma empresa mais flexível como a nossa, tudo bem.
“Eu quero trabalhar o máximo que puder. Minhas filhas têm seus próprios problemas”
MIKIKO KUZUNO
Operária de 78 anos

Um dos funcionários de Morishita é Takayoshi Kimura, de 73 anos, contratado quando tinha 58 anos e que acabou se tornando um dos principais vendedores em uma movimentada loja de Tóquio. Ele havia fechado seu próprio negócio em dificuldades em uma localidade rural e chegou à capital em busca de emprego.

— Não há empregos no campo — disse Kimura, que pretende continuar trabalhando até os 75 anos, apesar dos apelos de sua esposa, que ficou no campo, para que ele volte para casa.
Morishita, por sua vez, brinca com seu empregado e diz que ele está bem e pode permanecer trabalhando por mais 20 anos.
No Japão, o trabalhador pode optar por adiar sua aposentadoria até os 70 anos em troca de receber um adicional de 40% nos pagamentos. Porém, não está claro se incentivar os japoneses a continuar trabalhando mesmo na velhice ajudará a reduzir os gastos com a Previdência. Muitos preferem se aposentar, mesmo por um valor menor, e continuar trabalhando. Apenas 1% dos que podem optar por adiar o pedido de aposentadoria em troca de um benefício maior no futuro fazem esta escolha.
É comum ouvir entre os japoneses mais velhos que a boa saúde é um incentivo para continuar trabalhando. Mikiko Kuzuno tem outra motivação: ela é solteira e não quer se tornar dependente de suas duas filhas. Ela trabalha desde a adolescência, mas a maioria dos seus empregos não ofereciam plano de previdência complementar. Então, ela vive de uma minguada pensão estadual, complementada pelo salário da fábrica de toalhas.
— Eu quero trabalhar o máximo que puder. Minhas filhas têm seus próprios problemas— disse ela. — Eu mal posso dar conta das despesas, então eu realmente preciso fazer o meu melhor.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

No Japão, sobra emprego para jovens e empresas disputam candidatos

No Japão, sobra emprego para jovens e empresas disputam candidatos


Economia do Japão está aquecida agora, mas falta de mão de obra jovem se tornou um problema para o país continuar crescendo.


Edição do dia 07/06/2018
07/06/2018 21h10 - Atualizado em 07/06/2018 21h15




No Japão, sobra emprego para eles e essa falta de mão de obra é um problema para o país continuar crescendo.
Não há espaço para ousadia nas cores, homens e mulheres usam preto. É tradição japonesa na hora de buscar trabalho. Esses jovens, alguns no último ano da faculdade, outros recém-formados, querem transmitir seriedade ao visitar a feira que reúne empresas, bancos, indústrias e até o departamento de polícia, todos com vagas em aberto.
A busca pelo primeiro emprego é um momento difícil na vida de qualquer estudante. Mas o Japão vive uma fase diferente. É possível sentir de perto o clima de tensão, de concorrência que existe: não entre os candidatos, mas entre as empresas.
Os recrutadores fazem de tudo. No pacote de benefícios, viagens de confraternização, visita virtual ao local de trabalho, ajuda com aluguel para sair da casa dos pais e, ainda assim, falta candidato.
“A mão de obra está escassa porque há anos o Japão enfrenta menos nascimentos e uma redução da população ativa”, explica o funcionário de uma empresa de entregas.
Uma rede de restaurantes não consegue completar seu quadro de cozinheiros. Algumas filiais têm que fechar mais cedo. Em outras, a automação foi a receita: para não queimar o refogado, a panela gira sozinha, a máquina decide a hora em que o macarrão instantâneo está pronto, e o cozido, chamado de champon, caminha por si só sobre o fogão por indução. De oito, agora são quatro funcionários por turno. A gerente diz que “foi fácil se adaptar a essa tecnologia, mas sente falta da animação que havia na cozinha”.   

As máquinas e os estrangeiros podem ser uma solução a longo prazo, diz esse analista. Mas como a economia do Japão está aquecida agora, os jovens têm que aproveitar, já que “o recém-formado tem mais vantagens para escolher a profissão, escolher a empresa em que quer trabalhar”.
A Erika já percebeu. Com 21 anos, está pesquisando as propostas que recolheu na feira.   Mas, no país com fama de exigir longas jornadas de trabalho, ela deixa bem claro o que quer: “Eu procuro uma empresa que ofereça duas folgas na semana e não me obrigue a fazer tanta hora extra. Quero ter tempo livre”.