quinta-feira, 19 de abril de 2018

Operação Entebbe

Operação Entebbe

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Operação Entebbe
Conflito Árabe-Israelense
Entebbe Uganda Airport Old Tower1.jpg
O antigo terminal do aeroporto.
Data4 de julho de 1976
LocalAeroporto de Entebbe
 Uganda
DesfechoMissão bem sucedida (102 dos 106 reféns resgatados)
Beligerantes
 IsraelPFLP-GC Flag.svg FPLP - OE
Revolutionäre Zellen.svg Células Revolucionárias
 Uganda
Comandantes
Israel Dan Shomron
Israel Yekutiel Adam
Israel Benjamin Peled
Israel Yonatan Netanyahu
PFLP-GC Flag.svg Wadie Haddad
Revolutionäre Zellen.svg Wilfried Böse 
Uganda Idi Amin
Forças
Cerca de 100 soldados, mais a tripulação e pessoal de apoio7 sequestradores palestinos
+ 100 soldados ugandenses
Baixas
1 soldado morto
5 feridos
7 terroristas mortos
45 soldados ugandenses mortos
3 reféns mortos (2 durante a operação e 1 mais tarde em um hospital das proximidades), e outros 10 reféns feridos.
Operação Entebbe foi uma missão de resgate contraterrorista levada a cabo pelas Forças de Defesa de Israel no Aeroporto Internacional de Entebbe em Uganda no dia 4 de julho de 1976. 
Uma semana antes, em 27 de junho, uma aeronave da companhia aérea Air France com 248 passageiros havia sido sequestrada por membros da Frente Popular para a Libertação da Palestina e das Células Revolucionárias da Alemanha e desviada para Entebbe, o principal aeroporto de Uganda. 
O governo local apoiou os sequestradores, que receberam as boas-vindas do ditador Idi Amin. Os sequestradores separaram os israelenses e judeus dos outros passageiros e tripulação, forçando-os a entrar em outra sala. Naquela tarde, 47 reféns não-israelenses foram libertados. No dia seguinte, 101 reféns não-israelenses foram libertados e partiram a bordo da aeronave da Air France. Mais de cem passageiros israelenses e judeus, junto com o piloto Michel Bacos (não-judeu), permaneceram reféns e foram ameaçados de morte.
A missão foi originariamente denominada de "Operação Thunderball", depois, foi rebatizada como "Operação Yonatan", em homenagem ao comandante do contingente militar, o tenente-coronel Yonatan Netanyahu (irmão do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu), único militar israelita morto em combate. Porém, ficou mundialmente conhecida como "Operação Entebbe" (nome do aeroporto, onde se sucederam os fatos) e já foi tema de inúmeros filmes e livros. É considerada por muitos especialistas como a missão de resgate mais complexa e perfeita de todos os tempos.
Essa foi a missão mais famosa da unidade de forças especiais de elite, Sayeret Matkal, cujas atividades consiste em tempos de paz, em desenvolver constantemente táticas, formação e treinamento para outras forças especiais antiterroristas estrangeiras, como o SAS (Reino Unido), GSG 9 (Alemanha), entre outros. Foi a primeira vez que Israel mostrou-se ao mundo, no que toca a uma intervenção antiterrorista, longe da pátria. Dessa forma mostrou que Israel estava no topo no combate contra o terrorismo, na vertente militar.

O sequestro

O drama dos reféns começou, no dia 27 de junho de 1976, com o sequestro de um Airbus A300 da Air France, que fazia a ligação Tel Aviv-Paris, com escala em Atenas (Grécia), levando 258 pessoas a bordo.
Pilotado pelo comandante Michel Bacos, o avião francês decolou do Aeroporto Internacional Ben Gurion às 8h59, chegando em Atenas às 11h30. Desembarcaram 38 passageiros e embarcaram outros 58, entre os quais, os quatro sequestradores. O total a bordo era, então, de 246 pessoas, mais a tripulação.
Vinte minutos após o meio-dia, o avião já cruza os céus novamente rumo ao seu destino final, Paris. Oito minutos após a decolagem, enquanto as aeromoças preparam-se para servir o almoço, os terroristas assumem o controle do avião. Eram quatro, dois dos quais possuíam passaportes de países árabes (Jalil al-Arja e Abdel-Latif Abel-Razek al-Samrai), um do Peru com o nome de A. Garcia (na verdade, Wilfried Böse) e uma mulher do Equador de nome Ortega (na verdade, Brigitte Kuhlmann), estes dois últimos, posteriormente identificados como membros de uma das Células Revolucionárias (em alemão Revolutionäre Zellen) - rede de grupos militantes armados da Alemanha Ocidental, sendo que o mais conhecido desses grupos foi o Baader-Meinhof. Os quatro terroristas haviam vindo do Kuwait pelo voo 763 da Singapore Airlines e iam com destino a Bahrein. Entretanto, ao desembarcar em trânsito (na Grécia), os quatro dirigiram-se ao check-in do voo da Air France.
As autoridades aeroportuárias em Israel e a estação de controle da Air France percebem que perderam contato com o voo AF 139, alguns minutos após a decolagem em Atenas. Os ministros de Transporte e da Defesa, que participam da reunião semanal do gabinete com o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, são imediatamente informados. Apesar de não saber ainda o que acontecia a bordo, o setor de operações das Forças de Defesa de Israel (FDI) prepara-se para um eventual pouso da aeronave em Lod, onde situava-se o Aeroporto Internacional Ben Gurion.
Por volta das 14 horas do dia 27 de junho, o Airbus comunica-se com a torre de controle do aeroporto de Bengasi, na Líbia, solicitando combustível suficiente para mais quatro horas de voo, além de pedir que o representante local da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) fosse encaminhado ao local. Na verdade, uma parte dos sequestradores era ligada a uma dissidência da FPLP baseada no Yemene liderada pelo Dr. Wadie Haddad. Às 15 horas, a aeronave aterrissa em Bengasi e apenas uma mulher é libertada. Ela consegue convencer os terroristas e um médico líbio que está grávida e sob risco de aborto. Na verdade, está indo para o enterro de sua mãe em ManchesterInglaterra.
Em Israel, terminada a reunião, o primeiro-ministro convoca ao seu gabinete alguns ministros – Shimon Peres, da Defesa; Yigal Allon, das Relações Exteriores; Gad Yaakobi, dos Transportes; e Zamir Zadok, da Justiça. Fosse qual fosse o desfecho da história, esses homens teriam que tomar decisões e estavam-se preparando para isso, pois já sabiam que dentre os passageiros havia 77 de nacionalidade israelense. Rígida censura é imposta aos meios de comunicação para que não divulguem listas de passageiros e para impedir a veiculação de informações que possam, de alguma maneira, ajudar os sequestradores. Iniciam-se, também, contatos com os familiares dos viajantes. Em Bengasi o avião permanece seis horas e meia, durante as quais é reabastecido - "por preocupação humanitária do governo líbio para com os passageiros", segundo o coronel Muamar Kadafi, presidente da Líbia.
Às 21 horas e 50 minutos, o Airbus parte de Bengasi, voando à noite em direção ao sul, sobre o Saara líbio e o Sudão, afastando-se cada vez mais do Oriente Médio, e chegando ao aeroporto de Entebbe, por volta das três da manhã do dia 28 de junho. Os reféns foram então conduzidos para o prédio do antigo terminal do aeroporto. Em Israel, as unidades da FDI, em alerta no aeroporto, recebem ordens para retornar às suas bases. O que aconteceria dali em diante não exigiria medidas especiais em território israelense.

As exigências

Na terça-feira, dia 29 de junho, uma mensagem vinda de Paris, que primeiramente foi divulgada pela rádio de Uganda, revela os objetivos dos sequestradores: a libertação até às 14 horas do dia 1 de julho de 53 terroristas – 13 detidos em prisões da FrançaAlemanha OcidentalSuíça e Quênia, e 40 em Israel. Caso suas reivindicações não fossem atendidas explodiriam o avião com todos os passageiros.
Israel, a nação mais afetada, havia sempre deixado claro que nunca negociaria com o terrorismo e que estava preparado para derramar o sangue de seus cidadãos a fim de se ater a seus princípios. Em maio de 1974, por exemplo, terroristas tinham sequestrado os alunos de uma escola de Maalot, na Galileia; as Forças de Defesa de Israel(FDI) invadiram o edifício e fuzilaram os pistoleiros, mas à custa de 22 crianças mortas. Em Entebbe, entretanto, parecia impossível que Israel reagisse, pois apenas 105 reféns eram judeus - e o governo israelense seria criticado pela opinião pública mundial se pusesse em risco a vida dos outros.
Na quarta-feira, 30 de junho, França e Alemanha afirmam que não soltariam os terroristas, posição que se supunha seria a mesma de Israel. A França, no entanto, revela uma certa flexibilidade ao anunciar que seguiria a posição do governo israelense que, até então, mantinha-se em compasso de espera, aguardando o desenrolar dos acontecimentos.

A posição de Idi Amin Dada

As dúvidas que pairavam sobre as autoridades israelenses eram duas: Uganda seria o destino final dos sequestradores ou apenas uma escala para abastecimento? E como estaria reagindo o governo de Idi Amin Dadaditador de Uganda, diante dos acontecimentos – seriam anfitriões hostis ou parceiros ao sequestro? Afinal, desde 1972, as relações entre Israel e Uganda haviam se deteriorado muito, pois o governo israelense havia-se recusado a fornecer aviões a jato F-4 Phantom II ao país, sabendo que Uganda pretendia usá-los para bombardear os vizinhos Quênia e Tanzânia. Na ocasião, Idi Amin expulsou todos os israelenses do país.
Oficialmente, o governo de Uganda adotou uma atitude neutra em relação aos sequestradores, mas na realidade eles eram bem-vindos. Líderes palestinos encontravam-se no aeroporto para receber o avião, bem como unidades do Exército de Uganda. Era evidente a colaboração de Idi Amin com os guerrilheiros, pois, soube-se, depois, que outros integrantes da Frente Popular para a Libertação da Palestina foram transportados de Mogadíscio, na Somália, para o terminal em Uganda onde estavam os sequestradores e seus reféns, no jato particular do ditador. As dúvidas estavam, portanto, dissipadas. Caberia, agora, Israel elaborar um plano de resgate que pudesse levar à solução do impasse num exíguo prazo.

A libertação dos reféns não-israelenses

Curiosamente, na mesma quarta-feira (30/06), foram os próprios terroristas que desperdiçaram sua maior vantagem. Sem atinar para as implicações de seu ato, separaram os reféns não-israelenses e, aparentemente num gesto de consideração para com os outros países, permitiram que 47 reféns – exceto cidadãos israelenses –, retomassem sua viagem para a França. O capitão Bacos e sua tripulação recusam-se a acompanhar o grupo, afirmando que não abandonariam os demais passageiros. Uma freira francesa também insiste em ficar, mas é impedida pelos terroristas e pelos soldados ugandenses.
A libertação de alguns reféns e a evidência cada vez maior de que o principal alvo dos terroristas era pressionar Israel, aumentam a tensão no país e a pressão dos familiares para que o país atenda às exigências dos sequestradores. Nos círculos militares e altos escalões do governo, reuniões e mais reuniões são realizadas, além do levantamento de informações feito pela Inteligência em busca de dados que possam ser úteis a uma eventual ação de resgate. Novos nomes integram-se às reuniões entre as FDI e os ministros, entre os quais, o general brigadeiro Dan-Shomron, 48 anos, chefe dos pára-quedistas e oficial de infantaria; o general Benni Peled; e Ehud Barak, vice-diretor do Serviço de Inteligência das FDI.
A confirmação dada pelos reféns soltos, meticulosamente entrevistados pelos serviços secretos da França e de Israel, de que o governo de Idi Amin estava apoiando os terroristas foi fundamental para as medidas que seriam tomadas por Israel a partir de 1 de julho, quinta-feira, quando, 90 minutos antes de expirar o prazo dado pelos sequestradores, o gabinete se reúne e aprova o início de negociações com os terroristas. Estes, por sua vez, afirmam não estar interessados em negociações e sim no atendimento de suas reivindicações, estendendo o prazo até às 14h do dia 4 de julho.

As opções de Israel

Nesse 1 de julho, o Serviço de Inteligência descobre que o aeroporto de Entebbe havia sido construído por uma empresa israelense – Solel Boneh, o que possibilita o acesso às plantas originais do local. Cada vez mais, após intensos encontros com oficiais do exército, Peres convence-se de que a opção militar é possível e que é apenas uma questão de tempo para que todas as peças do quebra-cabeça se encaixem. A princípio os israelenses trabalham com três opções:
1ª) Um lançamentos de pára-quedistas no Lago Vitória e um silencioso desembarque em Entebbe usando barcos de borracha;
2ª) Um cruzamento em grande escala do Lago Vitória, partindo da margem queniana - usando barcos que poderiam ser alugados, emprestados ou simplesmente roubados;
3ª) Um pouso direto em Entebbe, seguido de um assalto rápido e uma remoção imediata dos reféns por ar por forças especiais da unidade Sayeret Matkal.
As duas primeiras opções foram rapidamente descartadas, uma vez que, após libertar os reféns, os israelenses iriam depender da ajuda de Idi Amin ou da intervenção da ONU para sair de Uganda - hipóteses que, devido àquela conjuntura, eram praticamente impossíveis de se alcançar sem um significativo número de baixas. Sendo assim o assalto direto a Entebbe seria a opção adotada.
O General-Brigadeiro Dan-Shomron é nomeado comandante da missão em terra e Yonatan (Yoni) Netanyahu, comandante da unidade Sayeret Matkal, comandante da força-tarefa que a executará. Uma réplica do antigo terminal de Entebbe é construída para simulação da operação, com base nas plantas obtidas junto à Solel Boneh e em fotografias aéreas, e os comandos começam a treinar. Enquanto isso, o grupo de reféns libertados chega a Paris. Trazem duas informações essenciais para Israel: a primeira, de que haveria menos pessoas para resgatar; a segunda, de que apenas israelenses estavam sendo mantidos como reféns, além da tripulação, o que, para o governo, significava que os sequestradores possivelmente acabariam matando a todos, mesmo que suas exigências fossem atendidas.
Na sexta-feira, 2 de julho, os chefes dos comandos da missão, então denominada "Thunderball", apresentam os planos detalhadamente para Shomron. Duas horas depois, Yoni reúne-se com os oficiais para as ordens finais, antes de mais uma simulação na réplica do aeroporto, incluindo o pouso dos aviões nas pistas sem iluminação de Entebbe. O ensaio levou 55 minutos, do momento em que o avião aterrissou até a sua decolagem. A preocupação maior entre todos os envolvidos é obter o máximo do "elemento-supresa".
O ponto fundamental do plano era fazer aterrissar em Entebbe, no meio da noite, quatro aviões Hércules C-130 de transporte, que descarregariam tropas da unidade Sayeret Matkal e veículos. Para evitar que os aviões fossem detectados, o primeiro Hércules seguiria imediatamente atrás de um avião de carga inglês cujo voo regular era esperado no aeroporto de Entebbe.

As tropas de assalto

As tropas que realizariam a ação em terra estavam divididas em cinco grupos de assalto:
  • Grupo de Assalto 1: se encarregaria da segurança da pista e dos aviões (era formado por 33 médicos que também eram soldados);
  • Grupo de Assalto 2: tomar o edifício do antigo terminal e libertar os reféns;
  • Grupo de Assalto 3: tomar o edifício do novo terminal;
  • Grupo de Assalto 4: impedir a ação das unidades blindadas de Idi Amin (estacionadas em Kampala, a 37 km de distância) e destruir os aviões de combate ugandenses MiG 17 e MiG 21 estacionados no aeroporto, para impedir uma possível perseguição. Este grupo também iria cobrir a estrada de acesso ao aeroporto, pois sabia-se que o Exército ugandense tinha tanques T-54 soviéticos e carros blindados OT-64 tchecos para transporte de tropas estacionados na capital.
  • Grupo de Assalto 5: evacuar os reféns, conduzindo-os para o C-130 Hercules que estaria à espera e seria reabastecido no local ou em Nairóbi, no vizinho Quênia - um dos poucos países africanos amigos de Israel.
Na medida do possível, tudo foi feito para eliminar os riscos. Sabia-se, por exemplo, que Amin uma vez chegara a Entebbe num Mercedes preto escoltado por um Land Rover, e veículos como esses foram embarcados no Hérculesque iria à frente, com o objetivo de confundir os ugandenses nos vitais primeiros minutos. Na madrugada do dia 3 de julho, sábado, Motta Gur telefona para Peres e o informa que os homens estão preparados e que a operação pode ser executada.

O início da operação

De fato, o elemento surpresa foi provavelmente o maior trunfo que Israel possuía. De acordo com Shomron: "Têm mais de 100 pessoas sentadas no chão numa sala pequena, rodeadas por terroristas com o dedo no gatilho. Poderiam disparar numa fração de segundos. Nós tínhamos de voar durante sete horas, aterrar em segurança, conduzir até à área do terminal onde os reféns eram mantidos, entrar e eliminar todos os terroristas antes que algum deles pudesse abrir fogo."Na realidade, ninguém esperar que os israelenses tomassem tantos riscos era precisamente a razão que os levaria até eles.
No Aeroporto Internacional Ben Gurion, os aviões começaram a levantar voo a partir das 13h20 do dia 3 de Julho, porém, tomaram direções diferentes, a fim de não chamarem a atenção da população e da imprensa. Saliente-se que, até esse momento, a missão de resgate ainda não havia sido formalmente aprovada pelo gabinete israelense. A partida dos aviões fora autorizada pessoalmente por Rabin, senão não haveria tempo hábil para sua execução.
Enquanto os ministros se reúnem para analisar as possíveis alternativas para a situação, incluindo a possibilidade de o país atender às exigências dos terroristas, os aviões aterrissam em Sharm el Sheikh, na região do deserto do Sinai, para abastecer e partem novamente rumo a Uganda, voando em direção ao sul, a baixa altitude sobre o Mar Vermelho para não serem detectados por sistemas de radares. Foi a partir daí que o plano foi revelado ao Conselho de Ministros, que autorizaram que a operação continuasse.
O primeiro ponto fundamental do plano era aterrissar o primeiro Hércules imediatamente atrás do avião de carga inglês que estava sendo esperado em terra, pois este não apenas absorveria a atenção dos operadores de radar ugandenses como também encobriria o ruído feito pelos aviões israelenses. A precisão tinha de ser absoluta - e foi.
Sete horas depois da decolagem, a força israelense aproximava-se de Entebbe, num céu carregado de chuva, sempre na escuta do comandante inglês, que recebia as instruções da torre de controle. O C-130 Hercules de Shomron colocou-se exatamente atrás do cargueiro.
O Hércules líder levava a força de resgate, chefiada pelo Tenente-Coronel Yoni. Também levava dois jipes e o agora famoso Mercedes preto, uma cópia perfeita do carro pessoal do ditador Idi Amin Dada. Dois C-130 Hercules adicionais levavam reforços e tropas destinadas a executar missões especiais, tais como destruir os MiGs estacionados nas proximidades. Um quarto C-130 Hercules foi enviado para evacuar os reféns.
O grupo aéreo também incluía dois Boeing 707. Um funcionava como posto de comando. O outro, equipado como um hospital aéreo, aterrissou em Nairobi, no vizinho Quênia. Os C-130 Hercules foram escoltados por um F-4 Phantom IIaté onde foi possível - cerca de um terço da distância. Circundando uma tempestade sobre o Lago Vitória, os C-130 Hercules aproximaram-se do final de um voo de 7 horas e 40 minutos. Porém, esperava-os uma surpresa: as luzes da pista estavam ligadas! Mesmo assim, aterraram sem serem detectados às 23h01 (hora local), apenas um minuto depois da hora prevista.

A chegada em Entebbe e o resgate

Após a aterrisagem, o primeiro C-130 Hercules, pilotado pelo Coronel Shani, segue para uma área mais escura da pista e, enquanto o cargueiro inglês taxiava, o Mercedes e dois Land Rover descem a rampa, transportando 35 membros da força-tarefa, entre eles Netanyahu, que iria tomar de assalto o velho terminal. Detalhe: os militares que iam no Mercedes estavam vestidos com uniformes ugandenses. Os operadores de radar não perceberam o intruso e nenhum alarme foi dado. Por esse erro, seriam logo depois executados pelo enraivecido e humilhado Idi Amin.
Em outro local, dez membros da brigada de infantaria Golani saltam do avião e espalham sinais para orientar a aterrissagem das outras três aeronaves, que se aproximam rapidamente.
Porém, os ugandenses logo perceberam a farsa e a 100 m do terminal duas sentinelas, com metralhadoras apontadas, ordenaram ao carro que parasse. Netanyahu e outro oficial abriram fogo com pistolas dotadas de silenciador, atingindo um dos homens, e o grupo seguiu em frente até uns 50 m do edifício. A partir daí, os israelenses foram a pé. Os reféns estavam todos deitados no salão principal e muitos dormiam. Quatro terroristas haviam sido deixados montando guarda, um à direita, dois à esquerda e um no fundo do salão. Todos estavam de pé e puderam ser identificados devido às armas que portavam. Apanhados de surpresa, foram mortos imediatamente, e o grupo de assalto subiu pelas escadas. Os reféns advertiram que havia mais terroristas e soldados ugandenses no andar de cima. As ordens eram para tratar os ugandenses como inimigo armado, se abrissem fogo; caso contrário, seriam poupados. Mas para os terroristas não haveria misericórdia. Diversos deles foram eliminados à queima-roupa enquanto dormiam. A ação no terminal antigo durou três minutos.
Sete minutos depois que o primeiro C-130 Hercules aterrissou, o segundo pousava, seguido pelo terceiro e pelo quarto. Logo que as rampas eram baixadas, jipes e veículos de transporte saíam em disparada, atravessando a pista. O grupo comandado pelo coronel Matan Vilnai assaltou o edifício do novo terminal, que havia sido apressadamente abandonado pelos ugandenses. As tropas de Amin pareciam totalmente confusas e incapazes de esboçar uma reação coerente. A única resistência determinada vinha da torre de controle, de onde partiu a rajada que feriu mortalmente Yoni Netanyahu, postado do lado de fora do velho terminal. Mas a unidade de Vilnai eliminou esse núcleo de oposição graças ao fogo concentrado de metralhadoras e lança-granadas.
O grupo do coronel Uri Orr encarregou-se do embarque dos reféns no avião que os aguardava. Por sua vez, a equipe que tinha ordens de eliminar os MiGs 17 e 21 ugandenses, levou poucos minutos para transformar onze deles em bolas de fogo com rajadas de metralhadoras.
O último dos quatro C-130 Hercules, com Shomron a bordo, parte de Entebbe às 00h30 do dia 4 de julho – 90 minutos depois de o primeiro ter aterrissado.

O regresso

Após uma breve escala em Nairóbi, para reabastecimento e a transferência dos feridos para o avião hospital, os reféns e os militares iniciam o voo de volta a Israel, por volta das 4 horas da madrugada do dia 4. Entretanto, apesar de todos os esforços dos médicos – então chefiados pelo coronel Ephraim Sneh, Yoni não resiste aos ferimentos e morre. Do lado israelense os mortos foram quatro: Yoni e três reféns – dois faleceram no fogo cruzado com os terroristas e uma senhora de idade, Dora Bloch, que havia sido transferida para um hospital de Uganda e que posteriormente foi assassinada por ordem de Idi Amin. Dos 13 terroristas envolvidos no sequestro, os oito que estavam no aeroporto foram mortos, entre os quais Böse e Kuhlmann. Os demais, segundo Shomron, estavam fora do aeroporto. Morreram ainda 35 ugandenses na operação. Além disso, um número incerto de soldados ugandenses e autoridades civis do aeroporto foram, posteriormeente, executadas por ordem de Idi Amin em virtude dos efeitos morais da operação sobre o governo ugandense.
Nas primeiras horas da manhã do dia 4 de julho, o C-130 Hercules pilotado por Shani sobrevoa Eilat e desce em uma base da Força Aérea Israelense (FAI) na região central do país. Enquanto os reféns são atendidos pelas equipes de terra, as unidades de combate descarregam seus equipamentos. Em seguida, retornam às suas bases e retomam suas funções de rotina, afastados da euforia que tomava conta de Israel e da admiração e respeito que haviam conquistado em todo o mundo pelo que haviam feito naquela noite.
Ainda no dia 4, aproximadamente ao meio-dia, um C-130 Hercules da FAI aterrissa no Aeroporto Internacional Ben Gurion. De suas portas traseiras, 102 pessoas - homens, mulheres e crianças - correm em segurança para se reunir a seus familiares e amigos.

‘Não se deve romantizar os terroristas’, diz rabino de Entebbe

‘Não se deve romantizar os terroristas’, diz rabino de Entebbe

Sonia Racy
18 Abril 2018 | 01h00 Estadão

Arquivo pessoal
O rabino brasileiro Raphael Shammah tinha 16 anos quando o avião da Air France em que viajava, que ia de Tel-Aviv para Paris, foi sequestrado em julho de 1976, pelo grupo alemão Baader Meinhof e pela Frente Popular de Libertação da Palestina. O caso é enredo do novo filme de José Padilha, Sete Dias em Entebbe – já em cartaz no País. Em rara entrevista, o sobrevivente respondeu a perguntas da coluna por e-mail.

Assistiu ao filme do Padilha? 

Assisti apenas a partes. Uma visão diferente, talvez válida como arte, mas inconcebível do ponto de vista ético. Quero dizer que o lado pessoal de um terrorista não deve ser romantizado, se isso significar de alguma forma justificar seus atos.

O senhor foi procurado para a pesquisa do filme?

Desta vez não, mas minha história já foi muito divulgada. O que posso dizer é que eu também tive um episódio real, no qual o terrorista alemão, de Entebbe, mostrou-se um ser humano sensível.

O que aconteceu então? 

No quinto dia do sequestro, uma quinta-feira, após sermos chamados no segundo grupo de pessoas a ser libertado, já estávamos na fila para sair e, de repente, um dos terroristas palestinos nos mandou voltar. Eu, um amigo e um casal de americanos. Ficamos apavorados e tensos. Lembro que o terrorista alemão chegou do nosso lado, tentou nos acalmar. Disse para não nos preocuparmos. Mas esta postura não apaga a ameaça feita pelo grupo de que, domingo de manhã, começariam a executar um refém a cada hora, caso Israel não liberasse 31 terroristas.

Passados os anos, o que foi mais marcante no episódio?

Durante o sequestro prometi que, se Deus me tirasse vivo dali, dedicaria três anos de minha vida a fazer o bem para os outros. Tarefa na qual mais tarde me empenhei em projeto educacional que nunca mais larguei. Ou seja, para mim o episódio foi um marco que me direcionou para o trabalho comunitário. Talvez essa seja a antítese do terrorismo, que busca usar a vida dos outros para alcançar seus interesses. Tento usar a minha vida para servir ao bem de outros.

Depois do sequestro o senhor voltou a viajar de avião?

Nas primeiras vezes deu “frio na barriga”, mas me acostumei. Acho que todos os nossos passos são dirigidos por Deus. Com esse pensamento aprendi a dominar o medo de qualquer experiência.

Como vê os atos terroristas no mundo hoje?

Em comparação aos anos 70 e 80, acho que a opinião pública amadureceu e vê com olhos mais críticos os atos contra inocentes. É verdade que, na Irlanda e no País Basco, o terrorismo cessou. O assunto se concentra hoje no choque entre a civilização ocidental e a islâmica. Mas sou otimista. Acredito que, apesar de todas as dificuldades, a humanidade está caminhando rumo a dias em que “não levantarão mais um povo contra outro sua espada.” E nem terroristas contra civis. /MARILIA NEUSTEIN

7 Dias em Entebbe

Divirta-se: saiba quais são as estreias da semana nos cinemas

André Carmona
19 Abril 2018 | 16h12



‘7 dias em Entebbe’. Foto: Orange Studio Cinéma

7 Dias em Entebbe

(7 Days In Entebbe, Reino Unido/2018, 107 min.) – Suspense. Dir. José Padilha. Com Daniel Brühl, Rosamund Pike, Eddie Marsan. 
Data de lançamento 19 de abril de 2018 (1h 47min)
Direção: 
Gêneros SuspenseBiografia
Nacionalidade Reino Unido


SINOPSE E DETALHES


Em julho de 1976, um voo da Air France de Tel-Aviv à Paris foi sequestrado e forçado a pousar em Entebbe, na Uganda. 
Os passageiros judeus foram mantidos reféns para ser negociada a liberação dos terroristas e anarquistas palestinos presos em Israel, na Alemanha e na Suécia. 
Sob pressão, o governo israelita decidiu organizar uma operação de resgate atacar o campo de pouso e soltar os reféns.
CRÍTICAS ADOROCINEMA
3,0
Legal
7 Dias em Entebbe

A ordem dos fatores
por 
Este drama parte da vontade de estabelecer equilíbrio entre dois lados de um conflito. No embate histórico entre Israel e Palestina, José Padilha busca dizer que os ambos têm suas razões, ambos cometem excessos, ambos apelam para a violência às vezes. Partindo do episódio verídico em que uma guerrilha pró-Palestina sequestrou um avião cheio de israelenses, em 1976, para negociar a liberação de presos políticos palestinos, o projeto sugere que os dois lados foram movidos por crenças, paixões e impulsos políticos equivalentes, porém aplicados a lados distintos da equação.

O princípio é louvável pela manifestação de empatia sem fomentar desavenças nem apontar culpados. Por esta razão, 7 Dias em Entebbe assume uma aparência quase fria, protocolar. Este é filme de ação, não no sentido de possuir cenas de ação em grande quantidade, mas de ser movido unicamente por elas. O roteiro, com seus letreiros, datas e decisões, apresenta uma sucessão pragmática de fatos, como um relatório do que ocorreu naqueles dias: o grupo efetuou o sequestro, o governo israelense não quis reagir, depois concordou, então apareceram desavenças entre os sequestradores etc. Se fosse um texto, seria repleto de verbos e pontos finais, mas com poucos adjetivos, advérbios ou conjunções.

A psicologia dos personagens é abordada de maneira apressada. Os personagens principais de cada lado, Wilfried Böse (Daniel Brühl) e Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike) entre os pró-Palestina, e o ministro Shimon Perres (Eddie Marsan) representando o lado israelense, hesitam algumas vezes no uso da violência, na necessidade de intensificar a ameaça caso o lado adverso não corresponda. No entanto, limitam-se à existência dentro deste episódio: jamais entendemos o que aquelas pessoas pensam ou vivem fora deste conflito epidérmico. A tentativa pontual de estudar a fragilidade de Brigitte, na cena do telefone quebrado, rumo à conclusão, beira o cômico de tão desajeitada.




De fato, o projeto não é afeito a sutilezas, como atesta a sua galeria de passageiros acessórios, cada um cumprindo uma função: as duas criancinhas para despertar simpatia, a senhora idosa que sobreviveu aos campos de concentração, o francês confundido com espião, o piloto boa-praça servindo de ponte entre vítimas e sequestradores etc. Cada um é definido pelo interesse que pode acrescentar ao conflito. Mas dificilmente o espectador lembrará o nome de qualquer um deles no final da sessão.

Eles valem como coeficiente para criação de suspense, bem orquestrado pela montagem nervosa, pela trilha típica de thrillers hollywoodianos, pela explicação quase escolar dos fatos. Padilha troca os traços autorais pela ambição de clareza: seu filme é de fácil interpretação política mesmo para pessoas que nunca ouviram falar no conflito Israel-Palestina. No entanto, soa como um projeto de linguagem e sensações padronizadas, comum dentro dos moldes da indústria americana.

Embora não se percebam muitas nuances no retrato, pelo menos existe a interessante busca por uma metáfora, através da dança contemporânea. 7 Dias em Entebbe confere um espaço importante a um espetáculo criado por Ohad Naharin, e bem retratado no documentário Gaga - O Amor Pela Dança. Esta peça israelense, simbolizando os conflitos militares do país, possui um ritmo vibrante, muito útil à edição. No clímax, talvez a montagem de Daniel Rezende se perca um pouco ao tentar mostrar tantos pontos de vista em paralelo: dos dançarinos, dos sequestradores, das vítimas, do governo israelense. Pelo menos, a comparação da guerra com sua representação artística dilui o aspecto fatual do filme. Esta é a mais bela ideia do projeto.




Mesmo assim, ela não deixa de ter o seu efeito perverso: ao destacar uma obra de arte israelense, durante uma ação de resgate de Israel, a edição coloca a vitória dos soldados judeus em paralelo com o desempenho impecável dos dançarinos. Quando a plateia aplaude os artistas, a montagem sugere que são os soldados que de fato recebem a ovação. Enquanto isso, curiosamente, nenhuma autoridade palestina é evocada. Na conclusão, de mesmo modo, os palestinos são esquecidos para se destacar a consequência do episódio na política israelense.

O filme adota, enfim, um ponto de vista, porém discreto, contido, misturado ao caos dos tiros, do sangue, da dança. Seria compreensível e mesmo desejável que Padilha assumisse claramente sua postura política – digamos, se fosse à esquerda como Ken Loach, à direita como Clint Eastwood, ou pertencente a qualquer outra nuance. No final deste relato, após a tentativa de equilibrar os dois lados e se mostrar imparcial, o pendente pró-Israel se revela pouco sincero, como uma mensagem subliminar, uma espécie de conclusão obtida após analisar friamente os dois lados, e não uma hipótese que os responsáveis já tinham desde o princípio.

É muito diferente dizer “Acredito que este lado está correto; vou lhe mostrar o porquê” e dizer “Analisei os dois lados igualmente, mas no final das contas, ficou clara a razão de um deles”. A primeira postura parte do posicionamento político para chegar às provas; a segunda parte de provas para chegar num posicionamento político. Um destes discursos corresponde ao do militante, o outro, o do juiz. Existe uma diferença muito grande entre a ordem dos fatores.

Filme visto no 68º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2018.

7 Days in Entebbe
Operação Entebbe [1] (BR)
Reino Unido
2018 •  cor •  
DireçãoJosé Padilha
ProduçãoTim Bevan
Eric Fellner
RoteiroGregory Burke
ElencoRosamund Pike
Daniel Brühl
Vincent Cassel
Eddie Marsan
Ben Schnetzer
GêneroAção
Aventura
MúsicaRodrigo Amarante
Direção de fotografiaLula Carvalho
EdiçãoDaniel Rezende
Companhia(s) produtora(s)StudioCanal
Participant Media
Working Title Films
DistribuiçãoFocus Features
LançamentoAlemanha 19 de fevereiro de 2018
Estados Unidos 16 de março de 2018
Brasil 19 de abril de 2018
IdiomaInglês

7 Days in Entebbe (no Brasil, Operação Entebbe) é um filme de crime britânico dirigido por José Padilha e escrito por Gregory Burke. O filme narra a história da Operação Entebe, uma operação de resgate que aconteceu em 1976 contra terroristas que possuíam reféns. As estrelas de cinema Rosamund Pike e Daniel Brühl fazem parte do elenco. O filme teve pré-estreia no Festival de Berlim em 19 de fevereiro de 2018.Foi lançado em 16 de Março de 2018 nos EUA.Em 19 de abril de 2018 foi lançado no Brasil 

7 Days in Entebbe é o quarto filme a dramatizar os eventos da Operação Entebe, depois que a TV Americana filmou Victory at Entebbe (1976) e Raid on Entebbe (1977), e o Israelense filme Operação Thunderbolt (1977).

Enredo

Quatro sequestradores assumem o controle de um avião, levando os passageiros de reféns, e levar o avião para a ilha em EntebbeUganda, em 1976, em um esforço para libertar dezenas de Palestinos presos em Israel.

Elenco

  • Rosamund Pike    -  Brigitte Kuhlmann
  • Daniel Brühl          -  Wilfried Bose
  • Vincent Cassel      -  
  • Eddie Marsan       -  Shimon Peres
  • Ben Schnetzer     -  Zeev Hirsch
  • Lior Ashkenazi     -  Yitzhak Rabin
  • Denis Ménochet   -  Jacques Lemoine
  • Nonso Anozie      -  Idi Amin

ROTEIRO

TRILHA SONORA

CompositorRodrigo Amarante

PRODUÇÃO

ProdutorTim Bevan
ProdutorEric Fellner
Produtor ExecutivoJonathan King
Produtor ExecutivoJeff Skoll
Produtora ExecutivaLiza Chasin

quinta-feira, 5 de abril de 2018

RUBEM ALVES - A MENINA E O PÁSSARO ENCANTADO





A menina e o pássaro encantado
Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
 Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
 Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
 Tenho de ir  dizia.
 Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades  dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
 Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
 Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
 Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
 Que bom  pensava ela  o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
 Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

sexta-feira, 16 de março de 2018

MOMENTO ANTAGONISTA: A ESQUERDA NÃO MORA NA FAVELA

Escrevendo Uma Nova Vida - Filme - Dublado





Escrevendo Uma Nova Vida - Filme - Dublado

Endereço curto:
https://goo.gl/i2cXhc

Título original - The Letter Writer

Gênero - Drama

Duração - 85 min

Estreia no Brasil - 01 de Agosto de 2014 - Filmado em 2011

Quando uma adolescente recebe uma misteriosa carta pelo correio, ela sai em busca do autor. É Uma viagem que vai mudar sua vida para sempre.

Um filme que transmite o peso das grandes batalhas da vida (divórcio, câncer, traição, vaidade, ganância) e a força das grandes vitórias (a generosidade, a inspiração, a entrega, a dedicação, a humildade, conversão e o infalível amor).

Poderia ser rotulado como infanto-juvenil porque a atriz principal é uma adolescente, mas suas relações com não se limitam ao mundo escolar, muito pelo contrário, são maiores, mais profundas e ricas que a maior parte das que temos em nossas vidas.

A sua reação a tudo que lhe ocorre, muito humana, é a mensagem que o filme deixa a qualquer um, de qualquer idade.

Amor não tem idade!!!

Direção: Christian Vuissa
Elenco: Aley Underwood, Pam Eichner, James Gaisford
Gêneros: Drama, Família
Nacionalidade: EUA

SINOPSE E DETALHES
Maggy (Alley Underwood) é uma adolescente rebelde que almeja pelo sucesso de sua banda de rock, ao passo que sua mãe não aprova a música.

Quando ela recebe uma carta misteriosa pelo correio, de remetente desconhecido e um conteúdo que a encanta, ela passa a procurar o autor da carta. Sua surpresa é encontrá-lo em uma casa de repouso.

Suas experiências a partir daí passam a mudar seu modo de ver a vida.

Elenco:

Aley Underwood como Maggy Fuller
Bernie Diamond como Sam Worthington
Pam Eichner como Nancy Fuller
Stella McComas como Stella
Kylee Thurman como Kim
James Gaisford como Jay
Nicholas Neve como Michael
Curt Doussett como Jason Fuller
Tonia Freeman Doussett como Sra. Fuller
Matthew Flynn Bellows como Professor
Peggy Matheson como Diretora